Mulher e criativa



Dia desses li um texto sobre como a representação feminina ainda é pequena no mercado publicitário e isso me fez lembrar das vezes em que vivenciei isso. Os meus momentos de reflexão começaram ainda em sala de aula. Poucas meninas na turma, menor ainda era o número daquelas que tinham o mesmo foco que eu. O tempo foi passando e finalmente consegui meu primeiro e tão sonhado estágio no (superestimado) setor de criação de uma agência, a única menina.
Tempos depois, já com mais habilidades técnicas e ainda sonhando em ser diretora de arte, eis que me aparece uma oportunidade de integrar a equipe de arte final de uma agência com um dos maiores clientes da cidade. Em uma conversa rápida por telefone com aquele que futuramente seria meu chefe, ouço o seguinte comentário: "não me leve a mal mas estou em dúvida se te contrato por você ser mulher". Pronto, mesmo depois de ter trabalhado arduamente para ser boa o suficiente para ser contratada por uma agência maior, me subiu no corpo aquela onda de insegurança justamente por uma coisa que eu não tive controle: meu gênero.
No teste de Q.I. para a vaga eu era a única mulher, o que não foi uma surpresa depois daquela conversa por telefone. Pois bem, tirei a maior nota, fui contratada e lá estava eu, única mulher em uma equipe de 5 arte finalistas. Até conseguir finalizar um encarte de 4 páginas em menos de dois dias meu nervosismo era notável, ficava até mais tarde, trabalhava escondido na hora do almoço, tudo pra não ficar aquém dos colegas e não usarem o fato de eu ser mulher como justificativa pro meu mal desempenho, pois esta era a minha única desvantagem, ter nascido mulher.


Com o tempo convenci a todos de que eu era bem mais do que um saco de estrogênio. Me lembro bem de um professor da faculdade que, ao me apresentar pra outra pessoa em um evento disse o seguinte: "ela não é uma menina comum, ela pensa como um homem e gosta de coisas de homem: quadrinhos, desenhos...". A parte mais engraçada disso tudo é que ele proferia essas palavras como se fosse o maior elogio que uma menina pudesse receber, e naquele momento, depois de ter vivido aquela experiência na seleção da agência, eu o entendi.
Gerações e gerações sendo criadas para servirem à família, a sociedade ainda se surpreende com mulheres que ocupam cargos intelectuais que exijam senso criativo. Boa parte das famílias ainda criam suas meninas como princesinhas, eu fui criada como uma criança que subia em árvore quando queria, soltava pipa, brincava de boneca, um dos ápices da minha vida foi a permissão da minha mãe para poder pintar as unhas com esmalte incolor aos 8 anos de idade pra no dia seguinte enfiar as mãos na terra pra fazer guerra de lama, e foi assim que surgiu a mulher que pensa como homem: de uma infância livre de paradigmas.  
O que quero dizer com tudo isso? Muito simples! Não são as agências que barram a entrada de mulheres no setor criativo, mas sim que boa parte das mulheres não são criadas para serem profissionais criativas. Pra criar você precisa ter empatia, e pra poder se colocar no lugar do outro e imaginar do que ele pode gostar você precisa acumular experiências, e muitas delas são vetadas para as meninas. Ainda convivemos com uma geração de meninas que cresceram rodeadas de informações que induziam a crer que uma mulher feliz é aquela que casa e tem filhos, e meninos que foram instigados a serem aventureiros, descobrirem o Mundo, a serem criativos.
Felizmente vejo essa realidade mudar aos poucos. Todos devem ser avaliados de acordo com suas habilidades e vistos como seres humanos acima de seu gênero ou opção sexual. Quando este conceito for uma realidade, veremos muito mais mulheres criativas trabalhando em agências de publicidade.
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